30 dezembro 2006
posted by ॐ Heitor Frusciante ॐ at 6:32 PM | Permalink

Sátiros




Sátiros
Jeane era uma moça linda, encantadora. Tímida, e um pouco retraída no início do ano, mas conquistou o coração de muitos rapazes de sua turma. Em especial, o de Jerônimo. Gostava dela porque ela não era como as outras mulheres. Era o típico perfil da moça de família de antigamente, mas sem ser tão pomposa nem chata. Era sem dúvida um amor de pessoa. Jerônimo não era nenhum santo, mas tinha a impressão de que o que sentia por Jeane era mais profundo do que podia imaginar. E teve essa impressão transformada em certeza quando viu seu amigo falando dela.
– Essa garota pensa que engana a gente, ela deve ser uma tremenda puta enrustida, isso sim. Eu vou pegar ela, podem apostar. E quando eu comer ela...A essa altura Jerônimo sequer percebeu quando deu um salto à frente, grudou na gola de Vinícius e desferiu um soco tão violento que o nariz deste verteu sangue.
Nenhuma palavra foi trocada, apenas olhares que diziam que a amizade de curta data já havia terminado, e daquele momento em diante eram inimigos declarados. Havia cheiro de morte no ar.

O sátiro
Havia também um gago raquítico, alvo de chacotas da turma. Gollum era como era chamado, em referência ao personagem de Tolkien.Uma piada em forma de gente. O pobre diabo nunca se defendia, ou demonstrava qualquer sentimento de revolta. Ele permanecia indiferente e inabalável. Perturbadoramente vazio. Gollum era secretamente apaixonado por Jeane, diziam. Mas eu nunca levei fé. E menos ainda no dia em que conhecemos uma velha amiga dele. Morena simpática, conversa agradável. E um belo corpo, devo admitir. Depois que nos despedimos, Jerônimo – ignorando a presença de Gollum, pôs-se a comentar grotescamente o que ele desejaria fazer com a morena, como se ela fosse uma qualquer. Gollum ouviu tudo, de orelha ardendo e com um olhar raivoso capaz de fazer arrepiar qualquer um. Lembrei-me de quando Jerônimo esmurrou Vinícius.

A Formatura
Na festa de formatura, todos estavam animados. Eu não. Fui beber num bar, junto com uns desajustados sociais que se declaravam os Anarcosatanistas. Pessoal meio demente, mas a bebida era sempre por conta de um deles. Gostavam de andar comigo não sei porquê. E quem não aparece lá, para minha surpresa? Gollum, soturno e fúnebre, com as mãos enfiadas nos bolsos do sobretudo marrom, mais parecendo um personagem saído de um filme noir. Sentou-se à minha mesa (os anarcosatanistas estavam entretidos num jogo de bilhar), pediu uma bebida. Ele nunca foi de conversar muito. Nem eu. Mas conversamos. Sim. Conversamos sobre os anos que se passaram, nossas expectativas pro futuro. E depois de um silêncio breve, contou-me (sem gaguejar...) uma fábula de Esobo. A história do sátiro que vivia com um homem.


A Fábula
Era um gélido inverno, eles estavam sentados em frente à lareira. O homem tentava aquecer as mãos soprando ar quente nelas. “O que está fazendo?”, perguntou o Sátiro curioso. “Estou tentando aquecer as minhas mãos. Está muito frio!”, responde o homem. E o sátiro pareceu pensativo.
Mais tarde, tomavam sopa. O homem pôs-se a assoprá-la. O sátiro perguntou, parecendo transtornado, “E agora, o que está fazendo?”. E o homem responde: “Estou assoprando a sopa porque está muito quente!”.O sátiro sentiu um arrepio. E na calada da noite, foi-se embora deixando apenas um bilhete, alegando não poder viver sob o mesmo teto de uma criatura que com a mesma boca, assoprava o quente e o frio.
História idiota, pensei. Sujeito esquisito, concluí. Pagou a rodada e foi-se embora, desaparecendo na escuridão da noite. Senti um arrepio.


Moral da história
Semanas mais tarde, eu ficaria sabendo (pela própria Jeane) do que aconteceu na noite de formatura. Jerônimo apareceu com a garganta aberta, olhos arregalados, lavando o chão com o seu sangue. Se estrebuchou um bocado, sob os olhares horrorizados de seus colegas, e finalmente morreu. Todos olharam furiosos pra Vinícius, caindo de bêbado. Lincharam-no. Foi pra UTI. Os médicos disseram que ele terá sorte se sobreviver.
Dei risada quando ela terminou.– Seu louco! Qual é a graça?– Agora sim eu entendi a porra da fábula! Que sujeito impressionante! Tenho que tirar o chapéu pra ele...Ela me deu um tapa. Saiu falando alguma coisa sobre o Gollum e eu sermos estranhos demais, pois quando o mesmo recebeu a notícia, disse ela, não esboçou nenhuma reação.Eu ri mais ainda. Ela foi embora. Acho que nunca mais vai falar comigo. Mas talvez seja melhor assim. Não vou sentir falta dela.

Sátiros e seres humanos não se dão mesmo.